Fé e evangelização: um projeto permanente no discipulado missionário da Igreja no Brasil

04/04/2022 . Artigos de Formação

A ação evangelizadora é uma urgência para a Igreja. O imperativo missionário de Jesus: “Ide pelo mundo inteiro e proclamai o Evangelho a toda criatura!” (Mc 16, 15), perpassa os
séculos, de forma que Ela – a Igreja – sinta-se sempre jovem e impelida a evangelizar.
Desprezar a evangelização é desprezar o imperativo do Verbo Divino. A Encarnação é um evento missionário, e por si só, o modelo de toda missão. Ao armar a sua tenda na humanidade (cf. Jo1, 14), o Verbo Eterno entra na história humana, assume suas vicissitudes, com exceção ao pecado, empreende um projeto missionário e traz, aos homens, a salvação.
Alicerçada na missão salvífica do Divino Redentor, a Mãe Igreja buscou zelar,
desde os primórdios, dessa incumbência divina. Seu desejo não é cristianizar o mundo, mas anunciar, aos quatro cantos do orbe não “[…] uma decisão ética ou uma grande idéia (sic), mas
um encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá a vida um novo horizonte e, assim, o rumo decisivo.” (Bento XVI, 2006, p. 7, nº1).
Diferentemente do que muitos teimam em afirmar, “o encontro com o Messias (Jo 1, 35-51), no mundo contemporâneo, é possível.” (Documento 107, 2017, p. 37, nº 54). Anunciar o encontro com Jesus é tarefa visceral daqueles que o fizeram, pois “quem se abriu ao amor de Deus, acolheu a sua voz e recebeu a sua luz não pode guardar este dom para si mesmo.” (FRANCISCO, 2013, p. 51). Dessa forma, é de extrema necessidade repensar todo o processo evangelizador e catequético da Igreja, pois no decorrer da vida, cada homem e cada mulher, é chamado a aderir e testemunhar os efeitos do encontro com o Senhor. Assim sendo, a temática da fé e da evangelização são pressupostos indissociáveis em todo projeto missionário, pois a evangelização será eficaz “[…] para descobrir de novo a alegria de crer e reencontrar o entusiasmo de comunicar a fé.” (Bento XVI,2011, p. 10, nº7).
A fé em Jesus Cristo é uma porta que se abre a cada ser humano e que nunca se fecha. É a porta de entrada no coração da Santíssima Trindade na comunidade eclesial. Pelo Batismo, lavados e enxertados, como ramo à árvore frondosa – Cristo – cada batizado é exortado a responder aos anseios do Senhor. A fé é a resposta primeva que brota do coração do ser humano que se reconhece amado pelo Senhor.
Com o advento da globalização, a sociedade passou a viver como que em uma teia. Essa metáfora possibilita enxergar as interligações existentes e vigentes nesse emaranhado tecido social. Falar de cultura urbana é perceber que não é mais necessário estar localizado em uma metrópole para ser influenciado pelo “modelo cidadão”.
Assim afirma o documento (DGAE, 2019, p. 27, nº 27):

O cenário atual é ambíguo, marcado por luzes e sombras. Entre outras características, pela emancipação do sujeito, a pluralidade, o avanço de novas tecnologias que permitem cuidar melhor da vida, entre outros. Constata-se, por outro lado, a globalização, pelo secularismo, pelo relativismo, pela liquidez, pelo indiferentismo. […] a transmissão integral da fé no interior de uma cultura, em rápidas e profundas transformações, que experimenta forte crise ética com a relativização do sentido de pecado.

Diante de uma sociedade que traz na carne dos seus as chagas do secularismo, do individualismo, do consumismo, do descartável, da não identificação com as estruturas das quais se faz/fazia parte, a Igreja volta às origens e recupera o conceito e a vitalidade, não arcaicos, mas latentes e vivos das domus ecclesiae. Revisitando sua Sagrada Tradição, a Igreja retira coisas velhas e novas de seu tesouro (cf. Mt 13, 52). Por meio dessa visita, épossível esquematizar a vivência das propostas das novas diretrizes a partir da casa e seus pilares. Jesus não era um homem caseiro, porém, com seus discípulos e seguidores, viveu e promoveu muitas experiências que o aconchego de uma casa é capaz de oferecer. Esse aconchego não se restringe ao dado do conforto físico, mas ao espiritual, relacional. “A Igreja nas casas garantia um senso de pertença à família de Deus (Mc 3, 31-35) […]” (DGAE, 2019, p. 48, nº 76). Essa pertença e identificação são importantíssimos na vivência da fé e na evangelização.
A pandemia da COVID-19 evidenciou para a sociedade muitas deficiências e doenças que lesam todo o tecido social. Assim exortava o Papa Francisco naquela tarde de 20 de março de 2020, na praça de São Pedro:
Neste nosso mundo, que Tu amas mais do que nós, avançamos a toda velocidade, sentindo-nos em tudo fortes e capazes. Na nossa avidez de lucro, deixamo-nos absorver pelas coisas e transtornar pela pressa. Não nos detivemos perante os teus apelos, não despertamos face a guerras e injustiças planetárias, não ouvimos o grito dos pobres e do nosso planeta gravemente enfermo. Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente.
Com a chegada avassaladora do vírus, as seguranças foram desestruturadas e todos se viram forçados a se refugiarem e suas residências. A casa se tornou o lugar do refúgio, do aconchego e da proteção. Ademais, por graça de Deus, as Diretrizes da Igreja no Brasil já alertavam para a edificação da evangelização usando a metáfora da casa e seus pilares.
São quatro os pilares de sustentação dessa Casa/Igreja: Palavra; Pão; Caridade e Ação Missionária. Esses pilares devem nortear a evangelização que gesta discípulos missionários verdadeiramente apaixonados por Jesus e pelo seu Reino. Esse apaixonar-se por Jesus e seu Reino está no primeiro pilar (Palavra – Iniciação à vida Cristã). É impossível pensar a evangelização, a formação de comunidades eclesiais missionárias sem antes estar inserido na comunidade, de corpo e alma. A Palavra que interpela exige uma resposta dos seus destinatários. Ademais, cabe notar que, iniciados na fé, é constante a necessidade da mistagogia, a qual “[..] é uma progressiva introdução no mistério pascal de Cristo, vivido na experiência comunitária.” (Documento 107, 2017, p. 39, nº 60).
O pilar do Pão é a celebração. A comunidade louva, bendiz, agradece, celebra a fé e as maravilhas que o Divino Salvador opera na humanidade. Uma comunidade que se afasta da espiritualidade em prol do eterno fazer, desligou-se do tronco da videira. Celebrar e render graças é reunir em família, é alimentar a fé, robustecer a esperança e viver a caridade (cf. 1Cor 13, 13).
O pilar da Caridade está centrado no amor fraterno. “Na fé cristã, a espiritualidade está centrada na capacidade de amar a Deus e ao próximo. […] Sem a oração não existe vida cristã autêntica, sem a caridade, a oração não pode ser considerada cristã.” (DGAE, 2019, p. 58, nº102). Essa comunidade, que escuta e responde à vós do Senhor, que celebra; é a mesma que, alimentada pelo Pão da vida eterna, não se deixa cegar pelo egoísmo e, enxergando as mazelas do mundo, empreende metas cabíveis e praticáveis no anseio de remediar as dores do irmão e do planeta os quais sofrem, chegando à raiz de seus problemas.
O pilar da Ação Missionária é o comprometimento com a causa do Reino. Não se trata de evangelismo ou de superioridade no conhecimento de Cristo, mas de “[…] incentivar a descoberta das sementes do Verbo, presentes nas várias culturas, e promover o encontro dessas culturas com Jesus Cristo, que as ilumina.” (DGAE, 2019, p. 64, nº 114). Toda Ação Missionária é a explosão da alegria pelo encontro que se faz com Jesus ressuscitado. Agindo assim e aberta às novas formas de viver a fé, a Igreja não estará perdendo sua identidade, antes permitirá que o Divino Espírito A renove. Ele é sempre o protagonista da ação evangelizadora. Deixar que o Espírito A conduza é sinal de abertura, confiança e amor à sua/nossa missão.

Referências bibliográficas
BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica Deus Caritas Est. São Paulo: Loyola, 2006.
________________. Porta Fidei. São Paulo: Paulinas, 2011.
Bíblia Sagrada. Brasília: CNBB, 2019. 2º edição.
DOCUMENTO 107 DA CNBB. Iniciação à Vida Cristã: itinerário para formar discípulos
missionários. Brasília: CNBB, 2017.
DOCUMENTO 109 DA CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da igreja no Brasil:
20019-2023. Brasília: CNBB, 2019.
FRANCISCO, Papa. Momento extraordinário de oração em tempo de epidemia. Disponível em: Acesso aos 03 de ago. de 2021.
_____________. Lumen Fidei. São Paulo: Paulinas, 2013.

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