Como Jesus de Nazaré dá novo e pleno cumprimento à Lei Antiga de Israel?

21/12/2021 . Artigos de Formação

Caminhar pelos textos do Antigo Testamento, de forma desavisada e literal, faz com que o leitor desenvolva uma imagem errônea de Deus. Muitos O pintam como um senhor malvado, bravo, castigador, sempre pronto para punir com os piores tomentos. Ademais, uma leitura radicada na experiência fiel com a Palavra e consciente das errâncias do povo e do amor de Deus, faz com que essas imagens destorcidas sejam quebradas e uma verdadeira seja erguida.

As diversas faces de Deus, pintadas no decorrer da história, são importantíssimas para compreender a verdade de sua Lei que se transmuta num posicionamento ético. Desde os primórdios da vida, o homem é chamado a ser ético. O mesmo Deus que lhe insufla o hálito da vida dá-lhe o viés ético, pois é impossível caminhar com Deus sem ser ético. “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei.” (Gn 12, 1). Adonai dá uma ordem muito específica a Abrão, ele precisa sair, caminhar, movimentar. A vida dos que se decidem por Deus é assim, uma eterna caminhada. Porém, esse caminho não é feito sozinho, antes com a presença do próprio Deus e de pessoas que dele tomam parte. Além do mais, muitos são os que estão à margem dessa via e, por meio dos eternos caminhastes, serão tocados por Deus.

Viver como povo de Deus é aceitar, radicalmente, seus pressupostos éticos. A escolha do povo de Israel não é fruto de uma pré-eleição ou de que são melhores que os demais povos. Existe uma missão por detrás dessa escolha livre de Deus: “Por ti serão benditos todos os clãs da terra.” (Gn 12, 3). Israel precisa carregar consigo essas palavras, pois seu dever é de catequisar, com a vida as demais nações, revelar a elas a verdadeira face de Adonai.

Cabe evidenciar que, Adonai sempre oferece, nunca impõe, porém a aceitação de sua oferta vem acompanhada da decisão de seguir seus preceitos. A Torah – código das leis de Israel – é a seta, a reguladora. Ela norteia a vida do povo de Deus tanto no relacionamento com Ele quanto com os demais, sejam judeus ou não. A Lei não deve ser peso, antes uma pedagoga para o agir ético. Contudo, sua vivencia precisa estra radicada na liberdade, no amor e na misericórdia. Todas as vezes que o povo se afasta desse tripé, sente-a como um fardo em seus ombros.

Jesus se deparou com uma sociedade marcada pela legislação que deixava de ser divina e passava a ser meramente humana. Todo agir ético, que refletia o desejo e ação de Deus para com o povo, era substituído por práticas religiosas vazias e sem vida. O próprio Templo, donde deveria correr rios de água viva (cf. Ez 47, 1-12) emanam águas de morte. Nem a própria caridade, fruto do amor-ágape tem a liberdade de fluir nas relações, pois antes dela existe o repouso do sábado, o cuidado para se tornar impuro e não poder entrar no Templo. Diante dessas e tantas outras querelas, Jesus apresenta uma forma plenificada de viver a Lei a qual era sinal da decisão radical por Deus.

O intuito não é abolir a Lei, mas mostrar que, o seu objetivo tinha sido deturpado. Buscava-se muito o Templo, mas os que estavam a margem dele, verdadeiros Templos de Deus,
eram deixados de lado. Jesus afirma que sua intenção não está em abolir a Lei com seus códigos, mas sim dá o verdadeiro cumprimento, o qual está muito distante das práticas meramente externas e sem vida. (cf. Mt 15, 17-19). O agir de Jesus revela que, o esquecimento dos pressupostos ético desfigura o ser humano, isso faz com que a imagem divina impressa no homem seja cada vez mais fragmentada. Dessa forma, vê-se em Jesus um homem/Deus que não deixa de viver sua condição humana. Ele a explora, no bom sentido da palavra, radicalmente, mostrando que, para ser do Reino por Ele anunciado, é necessário esculpir novamente no humano sua verdadeira imagem.

O amor é a fonte de todo agir ético. Quando se ama, verdadeiramente, a Deus, ama-se verdadeiramente, ao próximo. Jesus ressignifica o grande manda mento do amor, com uma simples frase “Como eu vos amei amai-vos também uns aos outros.” (Jo 13, 34). O protótipo desse amor soa visíveis: a Eucaristia e a Cruz. Essa é a condição para ser reconhecido como seguidor de Jesus (cf. Jo 13, 35), não mais um sinal na carne, antes, diante da carne do irmão que sofre, ter um gesto pautado no gesto de Jesus.

Marcio Antonio da Silva

 

 

Referências bibliográficas
Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002.
VITÓRIO Jaldemir. Ética e teologia no Antigo Testamento. Disponível em:
<http://theologicalatinoamericana.com/?p=160> Acesso em 17 de ago de 2020.
________________. Ética e teologia no Novo Testamento. Disponível em:
<http://theologicalatinoamericana.com/?p=206> Acesso em 17 de ago de 2020.

Cúria Diocesana

Praça Cesário Alvim, 156 - Centro Caratinga (MG) - Cep: 35.300-036

Contatos

(33) 3321-4600 Telefone e WhatsApp chancelaria@diocesedecaratinga.com.br

Funcionamento

Segunda-feira a Sexta-feira 08h às 11h e 13h às 17h