Diocese de Caratinga

Rádio Eclesia

27º DOMINGO DO TEMPO COMUM

02/10/2022 . Comentários Homiléticos

1ª LEITURA – Hab 1,2-3; 2,2-4

Cuidado para não confundir o livro do profeta Habacuc (= Hab) com a carta aos hebreus (= Hb).

O profeta lamenta

O profeta Habacuc vive às voltas com um problema muito moderno: a impunidade dos malvados e opressores. Só que Habacuc, como profeta, possui uma qualidade que talvez ainda não temos. Ele vive em profunda intimidade com Deus e Deus lhe revela também seus segredos. Dessa intimidade e desse conhecimento de Deus nasce-lhe um aguçado senso crítico. Ele tem plena consciência de que a maldade e a opressão são contrárias ao projeto de Deus. Aí, ele se enche de uma santa e justa indignação. De tudo isso brota a ousadia de reclamar de Deus e de lamentar sua falta de intervenção. É o que lemos nos versos iniciais: “Até quando, Senhor, ficarei clamando sem que me dês atenção?” (…) “Por que me fazes ver tanta crueldade, e só ficas olhando a perversidade?” (…)

Javé responde

Em 2,2-4 se anuncia a resposta de Javé. Através de uma visão, o profeta poderá contemplar a derrota daquela cuja alma não é reta (v. 4), e o desaparecimento do homem arrogante (v. 5). Nesta resposta de Javé, devemos salientar dois pontos: O primeiro é a esperança: “Se demorar, é só esperar, ela vem mesmo e não há de demorar” (v. 3). O profeta foi gravar isso numa tabuleta, pois a palavra de Javé tem valor de lei. Seu projeto não falhará. O segundo ponto é a famosa frase que sintetiza toda a mensagem do profeta. Enquanto o injusto perece “o justo viverá por sua fidelidade”. Parece que uma tradução boa para este texto é: “O justo viverá pela fé”. Quer dizer, a justiça é fruto da fé; é Deus que nos faz justos através da nossa fé. E através da fé possuiremos a vida. É isto que vamos ler depois em Rm 1,17; 3,22; 4,3, etc.

2ª LEITURA – 2Tm 1,6-8.13-14

O autor, da escola de Paulo, escreve como se fosse Paulo e faz um testamento de pai para filho. O texto de hoje é dividido em duas partes:

1ª parte vv. 6-8

“Paulo” recorda a fé de Timóteo, por isso ele o exorta a reavivar a chama do dom de Deus, que ele recebeu por imposição das mãos de Paulo. Nosso compromisso batismal ou nosso compromisso eclesial precisa ser alimentado, incentivado, renovado, principalmente diante de inúmeros perigos que a vida nos apresenta. Na verdade, “Deus não nos deu um espírito de covardia, mas de força, de amor e de moderação”. Não temos, pois razão para sermos fracos e frios. A segunda exortação-testamento é não se envergonhar do testemunho. Timóteo deve testemunhar Jesus Cristo, e, assim fazendo, ele dá testemunho também de Paulo, que é prisioneiro por causa de Jesus Cristo. A palavra testemunho, em grego, implica em sofrimento e até mesmo em morte (testemunho = martírio). Por isso “Paulo” diz: “Sofre comigo pelo evangelho”. Quem está dando força a “Paulo” e também a Timóteo é o poder de Deus.

2ª parte vv. 13-14

“Paulo” pede a Timóteo para manter o modelo das palavras de salvação que Timóteo recebeu dele. São palavras inspiradas na fé e na caridade em Cristo Jesus (v. 13). No v. 14 pede que ele guarde o depósito precioso pela virtude do Espírito Santo. O depósito precioso é o depósito da fé e da doutrina recebido através de Paulo. O Espírito Santo que habita em nós é que nos ajuda a guardá-lo, renovando seu entendimento, clareando sua profundidade.

EVANGELHO – Lc 17,5-10

Na caminhada cristã, muitos são os desafios. A caminho de Jerusalém (9,51-19,27), o Jesus de Lucas vai refletindo as crises e desafios da Comunidade e buscando soluções. O texto de hoje aborda a fé e a gratuidade do serviço cristão.

A fé (vv. 5-6)

Parece que a Comunidade de Lucas esfriou um pouco a chama da sua fé e o evangelista remonta às palavras de Jesus para dar força à Comunidade. Diante da crise de fé é preciso pedir como os discípulos: “aumenta-nos a fé”. Os apóstolos falam em quantidade, mas Jesus responde em termos de qualidade. A fé pode ser pequenina como o grão de mostarda; mas o que é preciso é ter a força interior armazenada no grão de mostarda, que é capaz de se tornar uma grande árvore. Uma fé qualificada com esta potencialidade é capaz de arrancar da terra um sicômoro de profundas raízes e lançá-lo ao mar. É claro que se trata de uma metáfora, mas mostra, claramente, a força da fé. É uma fé assim que será capaz de reacender a chama e o entusiasmo da Comunidade.

A gratuidade (vv. 7-10)

É curioso que Lucas em 10,7 afirmou que o operário é digno do seu salário e aqui ele afirma o contrário. Este texto é próprio de Lucas e ele parece reproduzir a prática de Paulo da gratuidade da pregação e do serviço cristão (cf. 1Cor 9,7-19). O cristão como Paulo, deve comportar-se como servo na total gratuidade. Ele cumpre um mandato, uma ordem. A parábola mostra isto. O criado depois do trabalho não vai ser servido pelo seu patrão. Ele vai, sim, preparar o jantar e servir o patrão. E o patrão não lhe fica devendo obrigação nenhuma. Assim também o cristão, depois de ter cumprido todas as suas obrigações, deve dizer: “Somos criados inúteis. Fizemos apenas o que tínhamos de fazer”. Fé e gratuidade eis a solução para muitos problemas e crises na comunidade. Deus não é obrigado a nos recompensar pelas nossas boas ações, porque tudo que vem de Deus é gratuito. Escribas e fariseus é que ensinavam uma justiça retributiva. Quem cumpre a Lei recebe a recompensa da salvação de Deus. Quem não cumpre recebe a condenação. Eles colocavam a obrigatoriedade nas relações com Deus e esqueciam a gratuidade. Eles achavam que Deus é obrigado a nos salvar, porque somos bons. Mas ainda podemos nos perguntar, por que Lucas fala que “somos criados inúteis”, se o criado acabou de ser útil ao seu patrão? Primeiro, porque, como Cristo, estamos neste mundo para servir e não ser servido. Nós não devemos servir aos outros em busca de recompensa, mas na gratuidade. Segundo, porque a nossa salvação vem pela fé e não pelas obras. Quer dizer, o que fazemos não é útil para a nossa salvação. O que é útil para a nossa salvação é a fé. Quem nos salva é o que Jesus fez por nós, não o que fazemos. Nossas obras são necessárias, sim, mas como expressão da nossa acolhida da salvação que recebemos gratuitamente de Jesus Cristo. Nossas obras não nos salvam, mas, através delas, ajudamos na edificação do Reino de Deus, com o respeito mútuo, a convivência fraterna, um mundo mais justo e mais humano. A salvação, porém, vem pela fé na gratuidade do amor misericordioso de Deus, manifestado em Jesus Cristo.

Dom Emanuel Messias de Oliveira
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