Teve início, no dia 29 de setembro de 2026, a XXIII Semana Temática Filosófica do Seminário Diocesano de Nossa Senhora do Rosário, que neste ano tem como tema “Condição humana na cultura digital: entre algoritmos e liberdade”. A programação foi aberta com a conferência “Inteligência artificial: a colonização do juízo pelo cálculo”, ministrada pelo Prof. Dr. Carlos Barth. Embora a participação do conferencista tenha ocorrido de forma on-line, a atividade reuniu grande participação presencial nas dependências do Seminário, proporcionando aos participantes um momento de reflexão e aprofundamento sobre os impactos da inteligência artificial na vida humana contemporânea.
A conferência teve como ponto de partida a compreensão da inteligência artificial apresentada pelo pesquisador Herbert Simon, distinguindo-a enquanto ciência, voltada à simulação dos processos da mente humana para estudá-los, e enquanto engenharia, direcionada à simulação dos efeitos da mente humana com a finalidade de automatizá-los. A partir dessa distinção, o professor chamou a atenção para uma questão fundamental: quais são as diferenças entre a inteligência artificial e a inteligência humana, especialmente quando se considera a capacidade humana de julgar?
Nesse sentido, foram destacadas características próprias do juízo humano, como a sensibilidade ao contexto e a dimensão afetiva. Diferentemente de uma operação meramente calculável, o julgamento humano acontece em situações concretas e inéditas, nas quais diversos elementos precisam ser considerados simultaneamente. A adaptação a essas circunstâncias exige não apenas a aplicação de regras previamente estabelecidas, mas também a capacidade de extrapolar e reformular os próprios problemas. Assim, a inteligência humana não consiste somente em resolver problemas nos termos em que são apresentados, mas também em reformulá-los de acordo com as possibilidades e circunstâncias concretas.
Ao abordar especificamente os chamados Large Language Models (LLMs), como os sistemas de inteligência artificial capazes de produzir textos e outros conteúdos, o conferencista explicou que seu funcionamento está relacionado a enormes conjuntos de textos produzidos por seres humanos, os chamados corpora de treinamento. Os algoritmos de aprendizagem percorrem esses conjuntos de dados e, a partir de sucessivas correções e delimitações, conseguem produzir conteúdos novos. Entretanto, essa capacidade também levanta questões sobre os limites e as condições em que tais sistemas atuam.
Um dos pontos centrais da exposição foi a mudança de perspectiva proposta pelo professor: mais do que perguntar apenas como a inteligência artificial precisaria ser para se igualar à inteligência humana, é necessário questionar como o mundo precisa ser organizado para que as inteligências artificiais atuais, com suas limitações, consigam nele operar. Segundo as anotações da conferência, é justamente essa segunda questão que poderá definir de maneira significativa os efeitos da inteligência artificial sobre o trabalho e o modo de vida das pessoas.
A reflexão culminou no conceito de “colonização do juízo pelo cálculo”. O cálculo passa a participar da tomada de decisões em um número cada vez maior de contextos da atividade humana, influenciando inclusive as formas pelas quais as pessoas são classificadas e compreendidas. Nesse processo, sistemas digitais e algoritmos podem produzir efeitos sobre os próprios indivíduos que são submetidos às suas classificações, estabelecendo um ciclo de reflexividade que também interfere no juízo humano.
A primeira conferência da XXIII Semana Temática Filosófica, portanto, abriu espaço para uma reflexão sobre uma questão cada vez mais presente na sociedade contemporânea: até que ponto o cálculo pode ocupar o lugar do juízo humano? A programação prossegue com o propósito de aprofundar a relação entre tecnologia, liberdade e condição humana, promovendo, no ambiente formativo do Seminário, um diálogo entre a tradição filosófica e os desafios emergentes da cultura digital.